Desde a publicação famosa de Bruno Bettelheim na década de
70 (A psicanálise dos contos de fadas), muito se tem discutido sobre a força
simbólica de obras infantis. Amos Oz, um escritor israelense mais famoso por
livros como A caixa preta, na qual já usa o poder da metáfora para falar de
política e relações familiares, faz uma excelente ponte aqui entre a sombra e a
luz desses temas.

A capa delicada quase te engana. A descrição menciona uma
fábula: os animais não falam, mas o faziam antes, e desapareceram uma noite de
tempestade indo para o bosque atrás de um demônio chamado Nehi. Conta que duas
crianças mais aventureiras, Maia e Mati, resolvem ir até o bosque e tentar
descobrir se as histórias são verdadeiras – maldições que incorreram em gente
da aldeia que tentou esse caminho, vinganças desses animais, o que pode ou não
ser dito. Afinal, hoje em dia poucos aldeões ainda falam dessa época e existe
até a crença de que esses animais jamais existiram.

Maia e Mati vivem rodeados por silêncio – imagine um lugar
onde não há sons de pássaros, miados, relinchos, uivos, ganidos. Onde não há
insetos nos jardins, peixes nos rios, cobras nos matagais. Mas o silêncio deles
é arquetípico como os contos de fadas geralmente são, e eles tem sonhos com
esses ruídos, sonhos que eles dividem com outras crianças e que os levam a ser
ridicularizados.

E aí o israelense Amos Oz traz outro ângulo – afinal, não há
sempre outro ângulo? Ao acompanharmos Maia e Mati ao bosque, nós também temos
um pouco de medo: medo de que seja verdade e não haja animais, medo de que seja
verdade e haja um demônio, medo de que seja verdade e haja maldições. Medo do
medo que foi incutido em nós, o que retrata muito da nossa época.

Quando Maia e Mati encontram Nehi, ele conta outra história,
e é inevitável que nos vejamos repletos de um impulso bom de solidariedade,
bondade e... impotência.

As quase 150 páginas desse livro podem ser divididas entre
crianças e adultos, e ouso dizer que as conclusões serão compartilhadas de
forma bastante igualitária em termos de profundidade, porque esse é o maior
tesouro dessa narrativa: o equilíbrio entre o lúdico e o real, o sutil e o
explícito, a delicadeza e a violência, o fraco e o forte. Para pré adolescentes
que gostam de ler, para adultos que não querem esquecer o poder que cada um de
nós tem.

Letícia Casavella

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