Comecei esse livro sem nenhum tipo de expectativa: já havia visto a Aline Bei no instagram da Livraria da tarde, e o livro rodando nas mídias, mas não sabia nada de relevante sobre ele: o conteúdo, o modo como ele é expresso, o jeito suave e terno de começar a falar, o soluço ao terminar.

Das maiúsculas aos parágrafos, um poema vivo (trocadilho intencional) sobre a morte. A protagonista descreve em meia dúzia de capítulos as perdas que pontuaram sua vida, e a gente, que começou ternamente, com a narrativa de uma criança de 8 anos, é surpreendido com o peso e a dor crua da falta. Da incompreensão sobre ela, do espanto paralisado que toma conta do sangue correndo nas nossas veias quando a gente imediatamente conecta com a nossa própria perda.

Depois da primeira ausência que eu senti como um vento absolutamente gelado num dia que eu achava que seria de sol, achei que estava preparada – mas fui surpreendida pelo próximo marco, que além de tudo estapeia a mulher dentro da gente, tão forte e tão frágil, tão historicamente incorreta no seu tamanho. Me encolhi lendo os 17 anos dessa moça e tudo que ela perdeu, literal e figurativamente, nesse ano.

Os 18, os 28, trazendo novos horizontes que eu instintivamente quero dizer cinzentos porque embora ame dias cinzas, acho que o horizonte não devia ser cinza, né? Devia ter sempre aquela linha com um brilho colorido que te traz vontade de chegar nele, e não esse cinza que ela descreveu.

Quando chegou o próximo capítulo, eu já estava ansiando pela tal esperança, não foi ela que ficou na caixa de Pandora? E ela apareceu, no formato do Vento, que eu não posso dizer como tocou meu coração sem dar spoiler. E foi uma perda, mas uma perda com cicatriz, uma perda do futuro, pra quem já sabia que ele estava definido.

Não sei dizer o que foram as próximas páginas sem te contar que foi um daqueles livros de terminar e ficar olhando pro céu e pensando no que ecoa em você: quais são os lutos que você traz consigo, na pele, nos olhos, na desconfiança? Quais são as mortes literais ou não que você acalentou, não superou, abarcou dentro do seu coração e te fazem um pouco de quem você é? Quais são as perdas que você escolheu, pra doer menos, e as que te pegaram de surpresa, alterando pra sempre sua bússola?

Acho que esse livro é sobre o pássaro e suas asas, sobre o céu que ele enfrenta e nem sempre é feliz, sobre o peso da alma que dizem que é igual ao peso de um beija flor, sobre ser livre e ter o coração permanentemente aberto para ser ferido, sobre doer tanto que a dor é reinventada, sobre perceber a dor dos outros. Sobre tanta coisa, que não coube nos capítulos escolhidos, porque a gente não consegue pensar nos que aconteceram entre eles…

Leia, mas leia com esses olhos de descobrir o mundo. Capaz de ao terminar, você descobrir mais por dentro que por fora.

Letícia Casavella
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