A primeira coisa que chama a atenção sobre esse livro é a
edição. Eu sou uma devoradora de livros há bastante tempo, e devo confessar que
nem sempre devoto meu olhar a esse cuidado, mas é quase impossível não notar a
capa vermelha, o posicionamento dela, o projeto gráfico, as escolhas editoriais
na seleção das narrativas, que se alternam entre poesia, prosa e afins no
decorrer do livro, estilisticamente selecionadas. É realmente lindo.

A próxima coisa que faz diferença na escolha desse volume é
o tema. Violência sexual é algo que ocorre com frequência nas manchetes
sensacionalistas, e como os acidentes nas estradas, nosso olhar pode ser
atraído mas logo é repelido, quase com vergonha de se envolver em algo tão
exposto.

Mas Amber Tamblyn faz dessa exposição e dessa crueza um fio
de Ariadne, nos levando para fora do labirinto do Minotauro, com cinco diferentes
sujeitos contando sua história – sim, são homens, o que faz da obra toda mais
especial ainda, porque assim podemos ouvir essas vozes e fazê-las ecoar com as
nossas, entendendo como as ouvimos e que preconceitos perpetuamos.

Estamos falando da mídia, da vergonha, do modo como os
gêneros são vistos, de como as vítimas são culpadas, de como os predadores são
vistos, de como essas pessoas devem continuar vivendo e se organizando
socialmente depois de ter passado por um trauma desse tipo, em meio à uma sociedade
moralista e caolha.

Há muito ressentimento, e o modo como a autora escolheu
retratar as narrativas, tanto do tipo de personagem quanto da predadora, Maude,
que é quase invisível e cujos motivos possivelmente redentores jamais
aparecerão, faz com que não consigamos ignorar esse sentimento original de
repulsa, de vingança, nem o posterior de admiração pela força humana, quando
lentamente as pessoas começam a superar, cada uma de um jeito, seus traumas e
voltar à vida.

É uma obra provocante, atual, e portanto dolorida e realista.
Não é um livro para se ler na praia e esquecer da sinopse no mês seguinte,
embora não seja denso em termos de narrativa. Mas é um livro para se
questionar, para trazer à tona o que não se costuma discutir, para no próximo
jantar entre amigos usá-lo para falar de coisas tão importantes que nem sempre
são publicadas: como sermos menos homem e mulher e mais humanos.

Letícia Casavella

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