Esse é um livro para te levar a lugares que talvez você
ainda não tenha visitado, além de literatura norteamericana, de best sellers,
de conforto. A edição é primorosa e um prazer à parte, mas a história é algo
que talvez você não tenha lido ainda – e, acredite, ao mesmo tempo está bem
perto de cada um de nós.

O livro começa em 1990. Estamos na Palestina – e aqui eu te
sugeriria um momento para pensar o que você sabe sobre qualquer hábito cultural
desse país ou dessa época: como são as roupas? O que se come? Como é a dinâmica
familiar? Não precisa ter respostas, mas se perguntar isso – sempre – é um
excelente exercício para ler livros de fronteiras mais distantes.

Isra é uma adolescente que gostaria de se casar por amor e
lê As mil e uma noites (‘é sobre a força e resiliência de uma mulher que usa
sua voz como arma’, explica ela)-  mas se
submete ao desejo dos pais e se casa com um pretendente que a levará para os
Estados Unidos para morar com ele e a sogra, e começar uma família – um dever
moral da mulher.

Isra não tem amigos, não conhece o idioma, e ao viver com a
sogra, se sente uma prisioneira de segunda categoria em vez da filha adotiva
que tinha esperança de ser. Sofre com depressão pós parto e é punida,
nascimento após nascimento, por ter dado à luz meninas – o que é uma fonte de
vergonha nesse contexto.

Pausa para que você respire fundo com essa frase, e imagine
o que é ler dezenas de páginas narrando as esperanças de Isra em cada gravidez,
o isolamento, todo um sentir físico coroado com esse emocional tão difícil e
solitário. Outra pausa para que você imagine que isso não é um spoiler – é uma
questão cultural que rege muito do que as mulheres palestinas viviam então, e
há muitos outros fios nesse tecido complexo que é esse silêncio tão barulhento.

Quando alternamos o ponto de vista para 2008, já no Brooklyn,
ouvimos Deya, uma das filhas de Isra, e descobrimos que ela tem sido criada
pela avó desde os oito anos de idade. Deya também está vivendo a pressão de se
casar com a pessoa certa, ter os bens materiais adequados, viver o
comportamento que é esperado – mas ela se vê como alguém que nasceu americana,
e seu inconformismo é mais ativista, ou mais declarado, do que o da mãe. Ao
ouvir Deya começar sua narrativa com “Eu nasci sem voz, mas não sabia disso”, é
muito difícil não se sentir uma única mulher com todas as mulheres do mundo.

Ainda ouvimos a voz de Fareeda, a sogra, tentando entender
como tudo se tornou desse modo: lembramos aqui que todos tem uma história, e o
poder de contá-la e ouvir histórias (As mil e uma noites novamente?) pode
definir o destino de um grupo todo.

Não vou mentir para você: é uma história muito dolorida. Mais
difícil ainda pode ser compreender essa dor no mundo ocidental – até
entendermos que nós também a temos, com outras vestes, outros hábitos, outros
algozes. É até curioso pensar nessa força: o livro tem personagens masculinos –
inclusive Adam, o marido, obviamente – e embora todas as vozes da narração
sejam femininas e a inserção deles seja quase pontual, é como se sua sombra cobrisse
todo o sol que elas poderiam ver. Credito isso ao talento narrativo da autora.

Italo Calvino tem uma frase que eu gosto muito: “Um livro
clássico é aquele que jamais termina de dizer o que tinha para dizer”. Quando
leio algo que acho transformador, sempre me remete a esse conceito – e acho que
Etaf Rum merece esse lugar na prateleira. Não é um livro sobre feminismo, não é
um livro sobre o oriente, não é um livro sobre imigração. É muito maior que
tudo isso, como deve ser um bom livro.

Me diga quando você o ler.

Letícia Casavella

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